Em um mundo marcado por conflitos, desastres, sanções, megaeventos e cadeias produtivas tensionadas, empresas e governos passaram a depender cada vez mais de previsibilidade jurídica para tomar decisões internacionais.
A Copa do Mundo de 2026, o impasse envolvendo o Irã, o terremoto na Venezuela e a desaceleração do comércio global parecem, à primeira vista, temas desconectados. Um pertence ao esporte, outro à geopolítica, outro à resposta humanitária e outro à economia. Mas todos revelam uma mesma tendência: o mundo entrou em uma fase em que o Direito Internacional deixou de ser assunto restrito a diplomatas e tribunais e passou a influenciar diretamente empresas, governos, cadeias produtivas e investimentos.
A Copa de 2026 é o maior exemplo recente da dimensão global dos eventos internacionais. Pela primeira vez, o torneio reúne 48 seleções, será disputado em três países-sede e terá 104 partidas, exigindo coordenação jurídica, migratória, comercial, logística, securitária e institucional entre Estados Unidos, Canadá e México.
Para o advogado Rodrigo Bueno Prestes, especialista em Direito Internacional, integração econômica e geopolítica jurídica, grandes eventos esportivos hoje ultrapassam a lógica do entretenimento.
“Megaeventos como a Copa do Mundo são plataformas de diplomacia econômica. Eles envolvem contratos internacionais, circulação de pessoas, proteção de marcas, segurança, infraestrutura, relações consulares, investimentos e reputação dos países-sede. O futebol é a face mais visível, mas o que sustenta o evento é uma complexa arquitetura jurídica internacional.”
Ao mesmo tempo, a crise no Oriente Médio e o impasse envolvendo o Irã mostram como conflitos regionais podem produzir efeitos econômicos globais. O FMI avalia que guerras na região podem pressionar energia, comércio e finanças, com impacto sobre preços, inflação e crescimento.
“O conflito contemporâneo raramente fica confinado ao território onde ocorre. Ele se projeta sobre rotas marítimas, contratos de fornecimento, seguros, energia, sanções econômicas e decisões de investimento. Por isso, empresas que atuam internacionalmente precisam acompanhar geopolítica como variável jurídica, não apenas como notícia de cenário”, afirma Prestes.
A OMC também aponta uma mudança importante. O comércio mundial de mercadorias cresceu 4,6% em 2025, acima do esperado, impulsionado por produtos ligados à inteligência artificial. Para 2026, porém, a projeção cai para 1,9%, em meio a tarifas, tensões comerciais e maior incerteza global.
Segundo Rodrigo, essa desaceleração não significa o fim da globalização, mas uma mudança de lógica.
“A globalização da eficiência, baseada apenas em menor custo e maior velocidade, está cedendo espaço para uma globalização da segurança. Estados e empresas querem saber de onde vêm seus insumos, quais riscos regulatórios existem, quais sanções podem incidir e quais alternativas contratuais estão disponíveis se uma rota ou mercado se tornar inviável.”
Essa mudança aparece também na reorganização das cadeias produtivas. Estudo da McKinsey aponta que mais de US$ 165 bilhões em fluxos comerciais foram deslocados do eixo EUA-China, em um movimento de realinhamento geopolítico do comércio. O mesmo levantamento afirma que as tarifas dos Estados Unidos chegaram ao maior patamar desde a Segunda Guerra Mundial.
“O comércio internacional está deixando de ser apenas uma decisão econômica. Ele passa a ser uma decisão de risco jurídico. Tarifas, sanções, controles de exportação, cláusulas ambientais, regras de origem e mecanismos de solução de controvérsias se tornaram elementos centrais da estratégia empresarial”, diz Prestes.
O terremoto na Venezuela, que deixou cerca de 1.450 mortos e mobilizou milhares de socorristas internacionais, evidencia outra dimensão do Direito Internacional: a cooperação humanitária. Em desastres dessa proporção, entram em cena protocolos de assistência, coordenação entre Estados, atuação de organismos internacionais, envio de equipes estrangeiras, logística de doações e regras de soberania.
“A resposta internacional a desastres naturais mostra que soberania e cooperação não são conceitos opostos. Em crises humanitárias, o desafio é coordenar ajuda externa respeitando a autoridade do Estado afetado, mas sem perder velocidade operacional. Isso exige capacidade institucional e confiança internacional.”
Para Rodrigo, o ponto comum entre esses episódios é a perda de previsibilidade.
“Empresas brasileiras ainda tendem a olhar o Direito Internacional apenas quando surge um problema. Essa lógica está ultrapassada. Hoje, o direito deve participar da formulação da estratégia, porque o risco internacional nasce antes do contrato, antes da exportação e antes do investimento.”
Nesse contexto, acordos como o Mercosul-União Europeia ganham nova relevância. Com quase 4 mil páginas entre texto base e anexos, o acordo não trata apenas de tarifas, mas de regras, instituições, solução de controvérsias e alinhamento regulatório.
“O Mercosul-União Europeia deve ser lido dentro desse cenário mais amplo. Ele não é apenas um tratado comercial. É uma tentativa de criar previsibilidade jurídica entre dois blocos em um mundo cada vez mais fragmentado.”
A principal mudança, segundo o advogado, é que o Direito Internacional deixou de ser reativo.
“No século XXI, o advogado internacional não é apenas chamado para resolver litígios. Ele precisa ajudar empresas e instituições a antecipar riscos, compreender cenários e tomar decisões estratégicas em ambientes regulatórios instáveis.”
(Fotos: iStock)
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