Profissional de cadeia de suprimentos relata bastidores da pandemia e mostra como decisões técnicas ajudaram a sustentar o abastecimento de um país

A pandemia de covid-19 desencadeou a maior disrupção logística das últimas décadas. O BCI Supply Chain Resilience Report registrou que, em 2021, quase três quartos das organizações globais sofreram perda de receita ligada diretamente a falhas na cadeia de suprimentos. Estudos da McKinsey demonstram que 73% das empresas enfrentaram problemas com fornecedores e 75% tiveram impactos na produção e distribuição no auge da crise sanitária. No mesmo período, o frete internacional atingiu níveis recordes, pressionando cadeias dependentes do comércio exterior.

A Nova Zelândia, uma das economias mais abertas do mundo, sentiu esse impacto com intensidade. O país depende de insumos importados para setores essenciais, incluindo alimentos e bebidas. Em meio a atrasos em portos, falta de contêineres e variações abruptas de demanda, o risco de ruptura era diário.

É nesse cenário que a brasileira Sorahya Camargo, profissional com 20 anos de atuação em planejamento de produção, gestão de materiais, inventário e processos de melhoria contínua, assumiu papel determinante no abastecimento do país.

Atuando em funções estratégicas dentro de uma das maiores fabricantes de bebidas da Nova Zelândia, Sorahya coordenava decisões de produção, compras e estoque em ritmo acelerado, muitas vezes com informações mudando a cada hora. “Os navios atrasavam, fornecedores reprogramavam entregas e a demanda oscilava de um dia para o outro. A missão era reorganizar a operação continuamente e evitar a ruptura de itens essenciais”, conta.

O planejamento como linha de frente

O cenário vivido pela brasileira refletiu um movimento global. Empresas com estruturas mais integradas conseguiram reagir mais rapidamente à crise, segundo análises internacionais sobre resiliência de supply chain. Na prática, isso exigiu cruzar dados de estoque, venda, capacidade industrial, prazo logístico e risco de ruptura com muito mais frequência — algo que antes era feito semanalmente e passou a ocorrer diariamente.

Para Sorahya, o chamado “apagão de previsibilidade” foi o maior desafio logístico do período. “A programação que antes valia por semanas precisava ser refeita em poucas horas. Era necessário priorizar produtos, revisar cenários e manter comunicação constante entre produção, logística e fornecedores”, afirma.

Nova Zelândia como laboratório de resiliência

A dependência de cadeias longas torna a economia neozelandesa especialmente vulnerável a choques globais de abastecimento. Pequenas variações em prazos de entrega podem comprometer fábricas inteiras e, por consequência, o fornecimento nacional de produtos de alto consumo. Por isso, decisões técnicas tomadas no nível do planejamento tiveram impacto direto nas prateleiras de supermercados.

“Se uma linha crítica para, o reflexo chega rápido ao consumidor. Nosso papel era enxergar o risco antes e redistribuir capacidade ou ajustar o mix de produção para manter o abastecimento estável”, explica Sorahya.

Lições práticas deixadas pelo maior colapso logístico recente

A experiência consolidou lições que hoje orientam empresas que buscam sistemas mais resilientes:

Visibilidade total da cadeia
Integrar informações de fornecedores, estoques, capacidade e demanda reduz o tempo de resposta e melhora a tomada de decisão.

Planejamento baseado em cenários múltiplos
Trabalhar com projeções alternativas de demanda e abastecimento diminui o improviso e aumenta a precisão.

Integração entre áreas
Produção, compras, logística e comercial precisam atuar de forma coordenada; reuniões curtas e dados consolidados são decisivos.

Disciplina no uso de dados
Indicadores de estoque, nível de serviço, acurácia de previsão e performance de fornecedores tornam-se centrais para evitar rupturas.

Competências analíticas e comunicação clara
Profissionais que conseguem transformar dados complexos em decisões operacionais rápidas tornam-se essenciais para a estabilidade da cadeia.

Para Sorahya, a crise deu visibilidade inédita à cadeia de suprimentos. “A pandemia mostrou que decisões de planejamento influenciam diretamente o que chega à mesa das pessoas. Foi o maior teste da área e também o momento em que ficou claro o tamanho da responsabilidade de quem atua nessa operação”, afirma.

A trajetória da brasileira durante o colapso logístico global evidencia o papel silencioso, porém decisivo, dos profissionais que mantêm em funcionamento as engrenagens invisíveis da economia, sobretudo em momentos de incerteza mundial.

Sobre Sorahya Camargo

Sorahya Camargo reúne 20 anos de experiência em supply chain, atuando em planejamento de produção, gestão de materiais, controle de estoques e logística em operações industriais na Nova Zelândia e para a América Latina. É pós-graduada em Business Logistics pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e em International Business Innovation pelo ICL Business School, com sólida atuação em processos estruturados, análise de dados e uso de sistemas integrados como SAP S/4HANA e Ariba.

Ao longo da carreira, liderou rotinas críticas de planejamento, apoiou implementações de sistemas, conduziu projetos de padronização e melhoria contínua e fortaleceu indicadores de performance em ambientes de alta complexidade. Sua experiência inclui coordenação de inventários e demandas multisites, otimização de fluxos logísticos e fortalecimento da colaboração entre áreas como operações, engenharia e supply planning. Reconhecida pela precisão analítica e pela capacidade de antecipar riscos, consolidou-se como referência em estabilidade operacional e tomada de decisão baseada em dados em toda a jornada do supply chain.